domingo, 4 de agosto de 2013

O dia de hoje merece um registo. Porque começou da mesma forma de sempre, no meio do trânsito caótico para chegar a uma cidade desesperada.
Contudo, as expectativas de uma vida normal e saudável numa cidade desesperada como Luanda, são uma cada vez maior utopia.
Seguia do Kinaxixi para os Combatentes, naquela via que está metade ocupada com uma obra que dura há meio ano e não ha forma de terminar, quando passa um carro da polícia, que levava detidos dois "lavadores de carros". Dia de ficalização pensei.
Uns baldes na parte de trás do carro indiciavam o crime de lavar viaturas na via pública. Há outros crimes passíveis de punição na via pública, tal como zungar para poder pagar o jantar dos filhos. Quando conversava a pessoa que me acompanhava sobre esta situação e o facto de a vida em Luanda sem impossível sem as zungueiras e vendedores de rua, pois sejamos realistas ninguém vai ao Panguila comprar fruta e tabaco para a semana, apercebemo-nos de que a mesma fiscalização está 20 m à frente a tentar deter uma mulher que vendia na rua.
Esta situação criou uma convulsão social. De um lado os vendedores de rua, do outro os polícias.
Sucede que os vendedores são muitos mais, e quando se trata de jogar ao jogo da corda com a Zungueira, conseguiram resgatá-la da polícia. A situação começou a aquecer, não houve panelas no ar, mas muita gente a xinguilar. Todos sabemos como reage uma matilha, ataca em conjunto. Foi o que aconteceu e os números fizeram-se valer.
A polícia faz com que a população furiosa disperse, mas não para  muito longe. A uma distância que possibilitasse o aremesso de pedras para a viatura da polícia e das que estava à volta. O caos instalou-se, os carros tentavam recuar mas a fila já devia chegar à Mutamba. Não havia escape possível. As pessoas abandonavam os carros em pânico...Até que a polícia desistiu.
Saldo: carro da polícia destruído assim como os da envolvente. De quem é a culpa... aqui, morre sempre solteira.

Ainda tive tempo de ouvir pelo canto do ouvido dizer quem me ladeava: O povo anda muito descontente.
Mas nãos nos preocupemos, eles são só 300.

sábado, 20 de abril de 2013

À roda da vida

Há momentos na nossa vida, cujas fotografias equivalem por mil palavras, porque as primeiras deixam de ser ditas e as segundas permanecem.
De repente faz-se um silêncio na nossa vida, que é preenchido de muitas outras formas, cores e texturas que desconhecíamos. Mas passamos a conhecer e a reconhecer nos outros os mesmos padrões.
São estes pequenos momentos que alavancam a mudança, são pequenos momentos (porque são curtos no tempo, mas longos na memória) como estes que te fazem recomeçar quando pensávamos que estava tudo feito.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

À água o que é da água.

 
Nunca este ditado teve tanto significado como em Angola.
De repente o céu faz-se de noite e as gortas começam a cair. Primeiro a brincar, como se fossem crianças a salpicar, depois mais aventureiras como os adolescentes que enfrentam tudo, por fim como se o fim do mundo estivesse por trás daquela pedra, que hoje se tranformou em cascata.
Quando a chuva é tão forte que não consegues ouvir os teus pensamentos... Sabes o que é? É aquele momento em que pairas, e lá trás, e a toda a volta e mais adiante só se ouve o rugir da água e uma melodia escondida.

http://youtu.be/SWSz_PAfgNc

a música de (quase) todas as viagens

Quando já quase nada tem direitos, eis que uma simples molécula reclama a si tudo o que de direito lhe pertence.

domingo, 14 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

pelos ares

Eis-me de novo sentada numa sala de espera de um aeroporto.
Este ano já lhes perdi as contas, mas pelo menos 16 veze me sentei e levantei destes locais míticos. Não há nada de marcante, todos são semelhantes, todos nos lembram que há outro lado do mundo.
Por coincidência, são quase todos "emergentes" o que equivale a dizer, muita parra e pouca uva.
Sucede que devido às sucessivas mudanças de escalas, aeroportos, hospedeiras (umas mais outras menos sorridentes), perdi o medo e a ansiedade de viajar.
Logo que entro no avião, durmo. Não me interessa para onde vou, se parto ou regresso, se tomo ou não o pequeno almoço (o meu preferido é a sandes de beringela da TAP), não conheço os meus vizinhos, não vejo os filmes...
 
Acontece que desisti de me preocupar... por isso simplemente vou onde me levam. Ou para chegar, ou para partir, mas sempre sabendo que tenho alguém à minha espera.
 
Agora, é hora de descolar
 
VRUUUUUUMMMMMMMM
Aqui vou eu!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Campeonatos de surrealidade

Estamos a falar de um país cuja segunda principal causa de morte é a estrada.
Não que ela desabe, ou o traçado seja perigoso ou nos engula, mas porque simplesmente há demasiada gente perigosa nela.
A seguir à Malária, os acidentes de viação são a segunda causa de morte em Angola. Considerando que é surreal morrer de paludismo no século XXI o que pensar destes números da estrada? Mas adiante, não se trata esta a questão.
Já assisti a acidentes que contrariam todas as leis da física e que nem respeitam a lei da gravidade, já assisti a mais atropelamentos mortais em 5 anos que nos restantes 30 da minha vida. Mas adiante.
Não deixo de me surpreender quando ouço na rádio que em Menga, Município do Wako Kungo, houve um embate frontal entre um camião e uma toyota Dyna.
Deste acidente resultaram 37 mortos e 11 feridos. Conclusão, o motorista do camião ia demasiado depressa. A minha pergunta é: porque é que ninguém se questiona porque estavam 48 pessoas na caixa de uma Dyna?
Como alguém muito sábio disse: "aqui morre-se à toa porque se quer!"

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Campeonatos da Surrealidade

Decidi dedicar os próximos capítulos ao que chamo Campeonatos de Surrealidade.
Por poder parecer algo que não, passo já a explicar: é o termo que aplico à realidade Angolana. Todos os dias tenho campeonatos da surrealidade para participar.
Então aqui fica o primeiro.
1. Passeio em Benguela, Sábado de manhã depois de uma semana de cão de trabalho, uma gastroenterite e vários kilos de pão ingeridos, decido sair de casa para tomar um café.
Enquanto percorro a marginal de Benguela, observando as belas casuarinas da Praia Morena ansiando que o Porta-aviões estivesse aberto às 9:30 da manhã. Enquanto absorvia todo o silêncio matinal, começo a ouvir um som irritantemente familiar. Parei para melhor escutar: sim, é verdade, era o som das carrinhas Family frost. Aquelas que incendeiam os Verões em Portugal e que me perturbam até à exaustão.
Sim, esse famigerado furador de tímpanos (sei que estão todos a trautear a mela melodia). Fiquei à toa, sem perceber de onde vinha, a querer fugir do som diabólico quando me apercebo que o som vinha de uma geleira com rodas empurrada por um vendedor de rua. Sim, uma dessas de venda de bebidas frescas e gelados...
Estupfacção e medo, caríssimos. Por isso vos digo, debaixo da mais pequena pedra vem o perigo!