sexta-feira, 8 de maio de 2020

As listas de coisas


As listas sempre me fascinaram, desde miúda.
Faço listas para tudo: compras, aniversários, multas para festas, coisas que faltam para casa… Qualquer pretexto é bom para fazer uma lista. Mas à moda antiga: num papel, nada de listas em aplicações nos telemóveis. O papel e a caneta/ lápis ainda têm aquela magia especial que me remete para outro espaço e tempo. É verdade que as listas me transportam.
O meu filho do meio parece ter a mesma compulsão que eu. Desde que estamos em quarentena faz um rol de pedidos diários. Alguns repetem-se, acho que os quer mesmo, como a máscara de tigre de dentes de sabre ou o ovo Kinder especial com não sei o quê lá dentro, mais o escorrega que transforma meninos em animais diferentes… E eu vou escrevendo tudo.
Um jogo engraçado que costumava brincar com a Dri era: “se te casares convidas-me?” E eu fazia a lista mental de todas as pessoas que convidaria para o meu casamento, na distante eventualidade de tal acontecer. E assim nos divertíamos a selar amizades com listas.
Enquanto lia “um homem de partes”, de David Lodge, em que se retrata a vida de H. G. Wells, o “maior escritor do seu tempo”, vi que H. G. Wells era obcecado por Obituários, queria saber o que diriam dele depois de morto. Este facto remeteu-me para uma lista que nunca acabava (que fazia sozinha) sobre: “se eu morresse quem iria ao meu funeral”.
Para a Dri o importante era saber quem estaria presente em vida, mas eu tal como o H.G. sempre me interessei mais por quem está lá quando nós não. Quem virá, sem precisar de ser visto. O que dirão de nós, quando já não podemos escutar.
Com a epidemia as listas continuam a acumular-se: número de pessoas infectadas, pessoas internadas, pessoas em estado crítico, número de mortes. Estas listas parecem-me intermináveis e pela primeira vez na vida, completamente desnecessárias. O esforço de achatamento da curva de repente tornou-se chato.
Prefiro continuar a fazer as listas do meu filho, com o seu papa-formigas e o fato especial com bico azul de pato que faz coisas assim. Essas sim, são especiais e fazem-me sentir que tenho um fiel seguidor.


sábado, 4 de abril de 2020

Semana 3

Cumprimos a terceira semana de isolamento, 17 dias de estado de emergência, renovado por mais 2 semanas.
Sabe-se lá quando isto acabará.
Noutro dia um comentador-sabetudo-nãosabenada, dizia que o governo tem que nos dar respostas em relação ao fim da pandemia. Penso que muitas pessoas pensarão assim, que temos que saber quando tudo vai acabar, mas na verdade não sabemos. Ninguém sabe...
Por muito que queiramos passar a Páscoa com a minha mãe e as minhas irmãs, na verdade não sabemos quando poderemos voltar a beijar-nos. Já lá vão 4 semanas.
As crianças continuam em regime de home-schooling, não sei qual a eficácia deste método, mas pelos nossos lados será quase nula.
É aborrecido a mãe ser mãe, ser educadora, ser empregada de limpeza, ser polícia, ser tudo sem chegar a ser nada. Estranhos tempos estes.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O que mais ouvimos nos últimos dias é: achatemos a curva, achatemos a curva, achatemos a curva, até à exaustão.
Mesmo assim, há quem não tenha entendido as recomendações e o significado de um estado de emergência.
A pergunta que todos queremos ver respondida não tem reposta: quando vamos estar bem?
Como vamos sair disto tudo? Será que seremos iguais ao que fomos?
Quando saio de casa, para o estritamente necessário como deitar fora o lixo, deparo-me, estupefacta, com o extraordinário número de pessoas que se passeiam na rua. Pessoas que caminham lado a lado, que para para conversar, que se demoram na  mercearia quando há uma fila cá fora à espera.
Será que vamos voltar a caminhar lado a lado nas ruas? Será que vamos voltar a partilhar o assento do metro, ou agarrarmo-nos com força ao casaco do utente do lado quando o autocarro pára inadvertidamente?
Os meus filhos parecem bastante felizes com este acontecimento. Têm a possibilidade de usufruir sem restrições da companhia dos pais, não têm responsabilidades de maior (além de fazer as actividades propostas pelas professoras). São muito novos ainda para sentirem as angústias das separação da família mais próxima, ou pensarem no que lhes reserva o futuro.
Preocupam-se em construir o seu barco feito de paus e telhas, adornado com folhas das árvores. Aí sentem-se seguros e divertidos, o resto são os escombros dos dias.
Vamos passando, colhendo os frutos que semeámos. Literalmente.
Vamos vivendo, à espera que amanhã esteja novamente sol e que estejamos todos bem. Aprendemos a pedir pouco, a esperar pouco.


domingo, 29 de março de 2020

segunda semana de isolamento

Esta semana, para acrescer às dificuldades que já sentimos e vivemos, foi decretada a fase de mitigação da doença. Significa isto que foi assumido que o contágio se dá a nível comunitário, sem seja possível identificar as cadeias de transmissão.
As restrições aumentam, porque se assume que o vírus está em toda a parte e todos são potencialmente portadores do mesmo.
A partir de agora as saídas de casa devem resumir-se ao estritamente necessário, compras, farmácia, abastecer o carro, mas tudo nas imediações da residência.
Com as crianças as coisas correm relativamente bem, uma vez que temos um jardim grande e eles divertem-se com as suas actividades. A relação mãe/ docente melhorou e conseguimos agora fazer os trabalhos com maior eficácia, mas com diminuído sucesso à medida que a semana passa. É difícil distinguir os dias da semana, pois são todos iguais. Se não fosse as actividades escolares nem sabíamos a quantas andávamos.
Coisas que descobri esta semana:
- que não preciso passar a roupa a ferro.
- que a balança está completamente descalibrada...

Mas em conclusão semanal, os dias vão-se levando. Como se diria na Tanzânia: Pole Pole.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Estado de Emergência

Dia 18 de Março de 2020 e o estado de emergência foi decretado.
E uma situação excepcional, que só ocorreu uma vez durante os anos de democracia. O que nos leva a querer que os nossos direitos sejam suspensos? O medo? o achar que os outros são menos que nós?
O quê?
Sabem o que significa?
Sabem que já não temos os mesmos direitos? Sabem que há países que dissolvem as suas democracias assim?
Sabem que dia 19 é o meu dia de aniversário e o estado de emergência começa nesse dia? que triste forma de celebrar.
O medo reina. As ruas estão vazias, apenas as filas habituais para os talhos, fruta, pão, mercearia e  farmácia.
Acho que já disse que parece um cenário de Mad Max. Será que estaremos prontos para a guerra?
Fico mais ansiosa a pensar no que nos vamos tornar, nós e o nosso mundo, do que a Pandemia em si.
Tenho medo da doença, sim claro. Tenho medo que morram as pessoas de quem gosto. Teqnho medo de ficar doente e deixar os meus filhos sozinhos.
tenho medo de não ter o que dar de comer aos meus filhos. Tenho medo de não ter dinheiro para pagar contas da água e da luz.
Tenho muito medo de como será o futuro. Será que ainda seremos iguais a nós próprios?
Certamente não irei esquecer o meu 43º aniversário.


terça-feira, 24 de março de 2020

Semana 1 - 16/03 - 22/03

Esta foi a primeira semana de isolamento social voluntário.
Por agora cessaram todos os contactos com familiares e amigos, mantemo-nos apenas os 5 em feliz cohabitação nesta casa.
Apesar da insistência da minha mãe, para ficarmos todos juntos optei por não o fazer por dois motivos:
1- A minha mãe, maior de 60 anos e hipertensa, é médica e continua a trabalhar. Está muito mais exposta que nós que estamos em teletrabalho a partir de casa. O mesmo com a minha irmã, embora tenha um risco mínimo de exposição, tem um risco maior que nós. Além dos mais , os miúdos são essencialmente vectores de transmissão, pelo que se estiveram em contacto com o vírus nos últimos dias, podem facilmente transmiti-lo, sem terem sintomas relevantes.
2. Temos um jardim. Ponto final. Ficar até fim de Maio (esperemos nós), com 3 crianças menores de 7 anos em casa fechados é um no-go.
E assim é, estamos isolados em casa, saindo apenas para fazer as compras do dia-a-dia e para apanhar algum ar. As crianças não saem de casa.
O João de todocriaçs, parece estar mais impaciente. É o único que pede para sair e para me acompanhar nas idas à pastelaria.
É dificil negar-lhes coisas pequenas: como um bolo de arroz ou um brigadeiro. Na medida do possível saio para satisfazer as suas necessidades, mesmo estes pedidos mais exigentes.
Ter um jardim ajuda muito, nomeadamente na execução de actividades ao ar livre com as crianças.
Antes de nos fecharmos fomos a um viveiro de plantas para nos abastecermos de plantas, para pormos as mãos na terra e daqui a umas semanas podermos colher alguns frutos.
Os miúdos não ficam muito excitados com esta actividade, mas a tenda Teppi e o ginásio do pai an garagem tem feito maravilhas pela sua sanidade mental.
O mais exigente é dar resposta aos requisitos educativos deles. Todos os dias recebo cerca de 5 emails com actividades a realizar, mais uns 3 de correcções. Obviamente alguma coisa tem que ficar para trás, e isso são as actividades dos mais novos.
Cada dia é uma luta para acordar, pequeno-almoço e preparar para os trabalhos de casa. É um esforço considerável conseguir que tudo isto aconteça de manhã, para poder fazer o almoço.
Esta primeira semana foi caótica: almoços às 15:00, jantares às 21:00. Estar em casa não é em definitivo ter tempo para casa, ou para estar com as crianças ou para estar a sós.
Estar em casa, fechada, não é proporcionalmente linear à frequência do curso de latim que o Frederico Loureço disponibilizou, ou para ler aqueles livros como se fosse adolescente ou para ver aquelas séries de quem todos falam.
Também não há tempo para por conversas em dia. Só por telefone. Carrego o telefone pelo menos 2 vezes ao dia.
As saudades crescem e ainda só passaram alguns dias.
Covid-19, faça o favor de passar e andar. Aqui ninguém te quer.

sábado, 21 de março de 2020

Amor nos tempos do Corona

O título é bastante óbvio e até gasto, diriam muitos de vós, mas não me ocorre melhor para descrever os tempos que vivemos.
Não acredito que seja o amor que nos vá salvar desta catástrofe, mas sim a ciência. Não haverá alinhamento de xakras, ou rezas e mezinhas tradicionais que resolvam o problema. Seria mais fácil acreditar que sim. 
Nunca pensei viver um cenário tão apocalíptico e descabido, não estava preparada. Mesmo com a ameaça das alterações climáticas, com resultados tão devastadores e já aí à porta, sempre fui empurrando com a barriga e pensando que a Humanidade encontraria a sua ordem.
Em meados de Janeiro começámos a ouvir falar do novo Corona Virus, uma epidemia que se alastrava na China e países limítrofes, mas contudo longe daqui. Depois, foi chegando mais próximo e no final de Janeiro começamos a contar os casos na Europa. Agora damos-lhe um nome próprio, porque a sua impostância é merecedora de tal: é o Covid-19. Os números foram-se amontoando, enquanto em Portugal continuavamos à espera, como a nêspera que algo acontecesse.
Entretanto em Itália a epidemia alastra-se e os números e mortos acumulam-se. 
Começamos a reflectir e a perceber que agora a pandemia estava demasiado próxima, e eis que, sem apelo nem agaravo, depois do Carnaval começam a aparacer em grande escala os casos suspeitos em Portugal, quase todos importados de Itália. O medo começa a interiorizar-se e a fazer parte da nossa rotina: será que conheço alguém que tenha ido a Itália? Será que estive nalgum local onde esteve um infectado, será que é seguro as crianças voltarem à escola depois da pausa, quando há tantos alunos que viajaram para países onde há casos confirmados? As perguntas acumulavam-se e sem uma resposta sensata à vista.
Nos dias que antecederam o início das aulas, que ocorreu 09 de Março, começo a receber notificações em catadupa sobre em grupos das redes sociais sobre os primeiros casos de Covid-19 e sobre a razoabilidade de a escola reabrir. Nós optámos por tentar manter uma rotina normal, mas observando a evolução do que se estava a passar. Não obstante a tentativa de manter a normalidade, abandonámos a realização de actividade física em espaços fechados e decidimos que a Catarina não iria à natação. Todas as saídas a cafés seriam as estritamente necessárias, a partir de agora.
Na escola, os número de crianças ausentes aumentava de dia para dia, enquanto aguardávamos expectantes alguma informação sobre a continuidades das aulas. A escola mantinha-se vigilante mas respeitando as decisões da OMS, DGS e da embaixada de França em Portugal. No fundo, ansiavamos que fechasse.
Nas notícias víamos: universidades a fechar (uma a uma), unidades de entretenimento a cancelarem actividades, cinemas a fecharem, enquanto enviávamos calmamento os nossos filhos para a escola. Já não podiamos ignorar que algo se passava, bem perto de nós. O que me parecia mais surreal era que as decisões estavam a ser tomadas unilateralmente, sem concertação, mas todas no mesmo sentido.
Entre nós a ansiedade foi aumentando, comprimindo o meu coração de mãe, até que decidimos que não voltariam à escola no dia seguinte. Isto porque um colega da minha filha tinha estado em Floresça nas férias. Aí senti o pânico a apertar-me o estômago e na Sexta-feira, dia 13/03, iniciámos o isolamento social voluntário, e permanecemos vigilantes em relação ao avanço da doença. Nesse mesmo dia, o Governo declara o Estado de Alerta, preconizando o encerramento de todas as escolas e estabelecimentos de ensino a partir de dia 16/03. Estamos oficialmente preocupados e aterrorizados com o que se ouve de Itália e mais concretamente de Itália.
Começámos aí a fazer planos para o que prevíamos que poderia acontecer, mas não ao ponto de ir a correr comprar papel-higienico. Por isso fiquei chocada quando numa primeira tentativa de comprar papel-higienico online, recebiamos mensagens de que artio estava esgotado. Porquê papel-higiénico? Porque não sabão para lavar as mãos.
As compras online que tinhamos feito a meio da semana, estavam confirmadas (incluindo o belo do papel-higienico e o atum em lata) e iríamos buscá-las na segunda feira, dia 16. Entretanto reforçámos a despensa, um bocadinho mais que o habitual, mas muito menos que uma família normal de 5 pessoas. Somos apologistas de minimizar o desperdício e comprar unicamente o que precisamos, mas atendendo à excepcionalidade do momento comprámos mais carne e peixe, vegetais e pão, considerando que as compras grandes estavam feitas.
Talvez nos achem loucos, mas embora tenhamos decidido fazer isolamento social voluntário, fomos passar um fim-de-semana há muito marcado na Régua.
Deixámos as crianças com a minha mãe e a minha tia e partimos.
O cenário que encontrámos foi desolador. Embora o hotel estivesse ainda bem composto na sexta-feira, não havia gente na rua nem nos restaurantes. Jantámos sozinhos, num restaurante só para nós, mas doía-me o desalento do jovem dono e dos funcionários. Aqui tive um primeiro vislumbre do que poderia estar para vir.
Já no hotel, muita gente a desmarcar e muitas de prevenção implementadas, para dar cobro às instruções da DGS.
Depois de voltarmos, fechamo-nos em casa à espera do pior. Ainda não sabemos o que será, mas sinto um nervoso miudinho em crescendo.
Como será o amanhã? É sempre a pergunta que deixámos para ser respondida no dia seguinte.