sábado, 10 de março de 2012

Para além do arco-íris

Eu vi com estes olhos que a Terra um dia há-de comer, da água brotar um arco-íris. Para ser mais precisa, não era um, eram dois.
Duas perfeitas arcadas delineavam o ar no local onde o mundo parecia estara ser engolido.
Muitas vezes penso na frase de Brecht: "do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem". Aqui olhei o rio a transbordar as margens que o oprimem, pensado como é brutar a força da Natureza.
Como somos pequeninos numa paisagem tão maior que nós.
Sentada no Zimbabwé, numa qualquer pedra onde antes se sentou certamente Dr. Livingstone, senti-me assoberbada por aquilo que a Natureza nos reserva.
Correndo o risco de parecer a minha avó, só me ocorria que de facto não somos nada. Que no meio do curso de um rio desponte a maior queda de água do Mundo e que depois disso o Zambezi continue a vaguear, entre meandros, até chegar a Moçambique.
As Quedas Vitoria estranguladas entre o Zimbabwé e a Zâmbia, são um dos Highlights de África.
Depois um dia ter pisado aquelo território avassalador, nunca mais a nossa percepção da Natureza é a mesma.
Debaixo de uma chuva permanente causada pela condensação da água da queda, quase não se consegue respirar. Não há coração que não vacile em Victoria Falls. Parte do meu ficou por lá, nesse canto de África.
Alguns registo, poucos porque por cobardia não quis estragar a máquina.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Era uma vez um lugar chamado São Tomé e Príncipe



Sempre ouvi o meu pai dizer que se houvesse um paraíso na terra, este seria São Tomé e Príncipe.
Quando somos novos tendemos a menosprezar o que os nossos pais nos dizem.
Quando cresci apercebi-me que não vou para o Paraíso quando morrer, por vários motivos alheios a esta conversa, e assim decidi que iria procurá-lo em vida.
Agora que a idade me deu a oportunidade de dar uma oportunidade aos meus pais, decidi ir a São Tome e Príncipe já que era aqui ao lado e tinha amigos disponíveis.
Mais uma vez não tive tempo de preparar a viagem, mas não há nada que um guia e uns amigos no local não resolvam.
E assim foi, parti a São Tomé e Príncipie no dia 6 de Novembro de 2011, em busca do último reduto de paraíso na Terra.
A chegada a São Tomé é deliciosa, de repente o azul do mar passa a ser turqueza e de repente suspende-se a respiração e é um encantamento total.
A aterragem não é pacífica, mas longe dos relatos infernais do século passado.
Chegando em Novembro ainda não se faz sentir o impacto do calor e da humidade e o ambiente está muito agradável.
O primeiro que salta à vista é o azul, rectificando, os vários azuis. Há azul turqueza, azul água, azul céu, azul escuro, azul-esverdeado, azul acinzentado.
Depois as nuvens, ora cinzentas ora brancas, sempre a ocupar todo o espaço livre. o que resta, fica a cargo da humidade...
São Tomé e Príncipe impressiona e arrepia.
Arrepia o silêncio das noites nas roças sem electricidade (obrigada sr. Januário da Roça de Belo Monte) que nos proporcionou um quarto na sua fazenda e um belo pequeno almoço.
Nas Roças, é preciso avisar com antendência a chegada. Os recursos são parcos e o gerador mantém-se desligado bem como o gás do fogão, a não ser que anunciem a chegada.
O cheiro de café que atordoa o ar durante a noite nas fazendas iluminadas pelas estrelas.
Antes de chegarem a Belo Monte, recomenda-se um pit stop em Neves para uma Santola. O lugar tem o mesmo nome, mas não é bem um restaurante... é mais um tasco, com renome mundial, mas um tasco.
A Santola é o prato do dia e tem que ser acompanhada pela Sorema de 600ml. Os resultados podem ser catastróficos, mas o bem que sabe!
A recompensa dos audazes! um prato de santolas.
Na mesma rota, antes de chegar a Neves, passa-se pela Praia Azul. água faz jus ao nome. Imagine-se que parece a Irlanda, mas com Embondeiros.
A Aventura pelo interior da Ilha vale a pena. entre curvas e contra curvas e caminhos de cabra mais ou menos apertados, acabámos por chegar ao Parque Nacional do Obo. Não acredito que muitos turistas consigas fazer este percurso, o qual só fizemos pela persistência do nosso homem e porque em vez de encontrar uma queda de água, encontrámos uma estação de tratamento de água. Uma coisa levou a outra e um túnel cheio de morcegos demoveu-nos de chegar mais longe. Não me perguntei por onde fui, só sei que não fui por aí... Por entre veredas.
Agora o Príncipe.
Se São Tomé é deslumbrante, o Príncipe assusta. É como São Tomé mas em estado bruto. Segundo o Guia Santo António é a mais pequena cidade do mundo digna desse nome. A Ilha é minuscula e apenas o Ilheu Bombom parece atrair turistas.
Mas uma visita à Fazenda Sundy e à praia Banana já pagam esta viagem e claro, os mil e um sorrisos das crianças.
Em Santo António conhecemos um casal Sul Africano que se encontra neste remonto lugar do mundo a ensinar inglês às criançsa Santomenses. Qual a finalidade, interrogo-me quando vejo que nem salas de aula têm, nem quase nada do que consideramos básico.
Pelo turismo e porque um excêntrico milionário comprou quase tudo neste pequeno paraíso terreno para direccionar a ilha para o turismo.
Das salas de aula ficou-me a saudade da escola primária. Olhei e vi as minha carteira.
De Príncipe, fica também a chuva, que molha tolos e os outros também e quase não deixa levantar o avião que nos levaria para São Tomé.
De São Tomé e Príncipe, fica uma vontade de volta para as coisas da terra, os sabores do peixe, os "mosquitos" no arroz, as folhas de micóco (Acho que é assim), o cacau, a banana, a fruta pão, os sorrisos e a certeza que com muito, mas muito pouco se pode fazer um mundo melhor. Todos os dias!
Em São Tomé seria bom olhar para o futuro...
Resta-me dizer: querido pai, tinhas razão!

sábado, 26 de novembro de 2011

às voltas do Equador

Já não escrevia desde as minhas últimas andanças pelo outro lado do Atlântico, mas parecem agora os únicos momentos que me fazem escrever.



Os momentos dos caminhos palmilhados.



Último destino, São Tomé e Príncipe, ou o último paraíso na Terra como também é conhecido.


E para prová-lo, ficam algumas imagens.















E o mais surpreendente é constatar-se que com tão pouco se pode fazer tanto...

E querido Pai, vou voltar com mais fotos e um relato digno de registo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Peru Glu Glu

Vou contar a história sobre um país que existia na minha memória e desapareceu.

Durante anos planeei uma viagem monumental ao Peru. Não que fosse a primeira opção na América latina, mas parecia a mais plausível.

Durante anos plantámos na imaginação os lugares e as pessoas relatados nas Viagens de Che Guevara (Motorcycle Diaries de Walter Sales). Engane-se quem pense que é o mesmo que vai encontrar. De mochila às costas, partimos para uma viagem que acalentou os nossos sonhos...

Nós, os europeus, criámos no nosso imaginário um subcontinente de fantasia, onde o imaginário prevalece sobre tudo o resto. Um subcontinente de aventura, revolucionário, incontestavelmente vindo do país das maravilhas, onde a autenticidade é o mote.

Quando chegas ao Peru na realidade não encontras nada disso.

Encontras sim um país onde o turismo domina todo o espaço. Um país onde te vendem a ideia de ser demasiado perigoso e onde ficas rendido ao mercado incessante dos operadores turísticos que te levam onde todos os outros vão. Chegas a ficar sufocada!

Não vês certamente o que Walter Sales te mostrou, tudo parece isento de autenticidades, excepto os bairros da lata de Lima como alguém fez questão de me lembrar. Obrigada Ricardo por não me deixares esquecer que a miséria existe.

É também verdadeiro o que se sente ao subir a Waina Picchu e ao olhares de cima Machu Picchu, ou veres o cenário de destruição deixado em Pisco pelo terramoto e até a imponência do deserto. É certamente um país magnífico, mas por favor... o Titicaca só existe na tua imaginação!

Não deixo de recomendar Paracas e as Ilhas Ballestas, Cusco e Arequipa. Tudo o resto é paisagem...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Volta a Angola em 34 anos

34 anos é muito tempo...Uiiii, tanto tempo.
Em 34 anos dá muito tempo para ter medo, para ter saudades, para desisitir e por fim, ultrapassando tudo isso, regressar e assim regressou a minha família. É tempo para sarar algumas feridas e ganhar coragem. Faz-se o tempo de vontade.







Tudo começou com a minha irmã mais nova, num desafio. Depois a do meio também alinhou. Daí até à mãe também decidir vir, com uma lagriminha no canto do olho que significava "vou voltar a ver a minha terra".Daí até serem comprados os bilhetes e tratados os vistos, já não havia retorno. Agora era para Angola e em força...(mas para uma outra luta).Depois planeei toda a viagem:
- Luanda, para marcar os trilhos, reconhecer locais, (re)ver caras conhecidas;

- tratar do bilhete da mais velha, que tem direito a ser cidadã;

- Benguela, parando nas quedas de água do Sumbe e percorrendo a estrada mais bonita de Angola.

- De Benguela ao Namibe;

- do Namibe ao Lubango;

- do Lubango até ao Huambo;

- do Huambo rumando a Malanje

-e por fim regresso a Luanda.




Tudo isto para cumprir em 2 pequenas semanas, com o único objectivo de suprir afectos. Afectos de lugares que não se esquecem e dos que se tudo faz por se esquecer, de rostos que permanecem nos lugares como que há espera que voltemos ao nosso canto, de árvores e quintais que diminuem de tamanho... de tudo isso e de um pouco de aventura se compôs está viagem. A aventura começou no dia 16 de Abril, pelas 6:00 quando o telefone trinou e uma voz do outro lado avisou: "Chegámos".

Depois de uma noite de kizombas e sentir uma bigorna na cabeça, levantei-me a correr cheia de mau-humor, mas no sentido do cumprimento do dever.


Dirigi-me ao aeroporto 4 de Fevereiro, onde aguardaei durante cerca de 30 minutos pelas princesas.

A partir daqui deixo as imagens falar.


A viagem terminou com um profundo e convicto: "Agora venho cá mais vezes" Ah Sorte...
O primeiro contacto com a terra foi emocionante... Como ainda tinhamos tempo a minha mãe pediu-me para passar nalguns locais.

Foi engraçado ver que passados 34 anos, a partir de um ou dois pontos de referência é possível reconhecer e refazer uma cidade.
Depois da volta de reconhecimento, partimos para Cabo Ledo, afastando a família para bem longe do burburinho e da confusão de Luanda. O tempo estava maravilhoso, o mar convidativo.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

o Mundo em que vivi

Fui criada num mundo dividido em dois. De um lado estavam os bons, os nossos, do outro estavam os maus.
De repente o mundo começou a mudar. Ruiu o Muro de Berlim, deixou de haver União Soviética, depois Jugoslávia. De repente já podiamos jogar Trivial porque não sabiamos como o mundo se chamava.
A partir daí começou a reorganização. Novos países, novos credos, novas políticas. Novos mundos, num mundo tão velho.
Depois as velhas feridas abriram e as guerras começaram: Balcãs, Golfo, Afeganistão, enquanto as guerrilhas continuavam.
Passados 10 anos da desmantelação da União Soviética, caem duas torres. Cairam muitas a seguir.
De repente olho em volta e não reconheço o Mundo em que Vivi.
Se o comunismo falhou, se o Capitalismo faliu, para onde caminhamos nós?
Olho para os Egiptos, Tunísias, Yemens, e não consigo perceber onde e como o Mundo vai parar!
Dou por mim a pensar que falta algo que faça sentido, mas o quê?
Continuo a não reconhecer o Mundo em que vivi...

domingo, 20 de fevereiro de 2011



Que tenho andado desaparecida... é o que mais me dizem.
As novas tecnologias já não são o que eram, o que nos obriga a uma constante actualização do nosso estado de espírito.
Verdade seja dita: primeiro foi o fim de ano, todo ele rotundo. Finalíssimo, a uma sexta-feira. Gosto quando as coisas acabam mesmo no fim, que é quando têm que acabar, assim soube que o ano tinha mesmo mudado. Não porque me obrigavam a engolir uvas passas, ou porque o fogo de artifício iluminava o céu, não apenas e simplesmente por que o ciclo se fechou.
Depois disso, foi passando o tempo e a vontade, fui passando por vários destinos.
Huambo, com as nespereiras e goiabeiras do quintal carregadinhas de fruta!
Soyo, sempre com o mesmo sotaque.
Benguela, com a Caotinha à minha espera.

Luanda, demasiado repleta de tudo... gente, cheiro e agora água.
Assim corre o tempo, entre um pé e o outro.
E também tive que matar saudades da Camba!
Tudo isto requer tempo, tudo isto requer vida.
É preciso estar presente, para existir.