domingo, 10 de janeiro de 2010

Primeira década!

Passagem de ano.
Planos? Esses eram muitos, mas não concretizados.
Acabou-se por encetar uma solução agradável e calma, da qual todos os participantes alinharam.
O Plano era simples: sair às 15:00, para apanhar o barco, transportar todas as nossas imbambas (nem imaginam quantas) ainda de dia e aproveitar o último dia do ano.
Bom, eram 17:00 quando saímos de casa assolados com a seguinte notícia: a estrada para o embarcadouro estava fechada! E agora, vamos fazer mais como então? As coisas eram mais que muitas, para trás deixámos o que poderia ser dispensável (claro que não foi a cerveja que deixámos para trás).
Enfim, lá se arranjou forma de nos transportarem as imbambas (por 2000 kz que nesta altura do ano a inflação aumenta), com o recado do transportado "avisa só as kotas que vêm aí para queimarem". Ou seja, era mais que tarde e fazer a viagem de barco à noite era algo que ninguém colocava.
Chegámos a correr, apanhámos o barco (pelo dobro do valor normalmente praticado também), fiz a viagem a uma velocidade alucinante com uma botija de gás aos pés e com um parceiro de banco que dizia: "esse mambo está descontrolado".
Chegámos a bom porto, ainda a tempo de ver de terra o último pôr-do-sol da primeira década do século. como não podia deixar de ser, deslumbrante como só em África pode sê-lo.

(primeiro pôr-do-sol de 2010) ~

Descarregámos na simpatiquíssima casa da família Batalha, que nos acolheu no último e primeiro dia do ano.
Só havia um senão: a bomba estava avariada e tínhamos que tomar banho com o famoso caneco. Ninguém se pareceu importar muito com isso. Afinal, a vida em África, por muitas versões que se apresentem, é sempre assim.

Aproximava-se a hora da mudança de ano e ninguém tirou a indumentária: saia ou calças de praia, t-shirt (ou simplesmente para os srs. de tronco nu) e em comum as havaianas (como dizem os angolanos: sai e vai).

Estava uma temperatura mínima 29ºC e ninguém parecia importar-se com isso.
Jantámos um belo repasto que o calor exigia, regado com umas cervejinhas fresquinhas, e para matar saudades de casa uma bela garrafita de maduro tinto.

Tudo é diferente: calor, churrasco, cerveja, pés na areia, ao contrário de frio, bacalhau e peru, vinho e pés em frente à lareira.

(mesa de jantar)


Meia noite: estava tão preocupada a engolir as passas com a porcaria do champagne que nem consegui pedir os desejos. Todos os anos é a mesma coisa. Só desejei que tudo acabasse rápido... mentira, lembro-me de um desejo relacionado com o euro milhões!
(make a wish upon a star)


À meia noite com os pés dentro de água, fogueiras e festas em toda a parte. Estes angolanos sabem como fazer uma festa!


Nós alinhámos na festa, afinal faziamos parte da família!


Muitos são os desejos para 2010:


- que todos os pôr-do-sol sejam como este do primeiro ano,
- que os amigos estejam sempre presentes;

- que os dias sejam quentes e cheios de esperança e confiança na mudança,
- que amanhã acordemos e estejamos num lugar muito melhor.



Dia 1- Dia de Iury da Cunha. Os meus ossos já não estão para isto. À espera até às 4:00 por um concerto, acabámos por chegar a casa completamente derreados às 6:00. Ao volante alguém gritava: onde está o meu Logans! Como diria uma amiga: MEDO!



Dia 2 - Sangano
(Miradouro da Lua, a caminho da Barra do Kwanza)


Há dias maravilhosos. What else?


Recomendações para 2010? Vamos fazer mais como então?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

"RAPI NÚ EAR"


Viva 2010! Há quem grite isto bem do fundo do coração, já que 2009 foi o ano de (quase) todos os desesperos para (quase) todos.

O Crash na Bolsa, o desemprego galopante, o encerramento de bancos e a perda das poupanças de vidas de trabalho, o preço inaceitável do gasóleo e da gasolina, não obstante a descida acentuada do valor do barril de crude, a reeleição de Sócrates... Enfim, nada de bom aconteceu este ano.

Um ano pautado por lutas inglórias, por lutas ruidosas e muitas silenciosas e silenciadas.
Um ano onde o sonegado lápis azul da famigerada R. Maria António Cardoso parece ter voltado a riscar e a marcar pontos. Big Brother (still) watches you?!

Silêncio, é o que mais imperou em 2009.

Uma palavra: Resiliência. As pessoas são plásticas, habituam-se rapidamente à privação e logo voltam à sua forma inicial. Ninguém foi acomodado este ano, muitos sim incomodados, mas outros muitos parecem adeptos da inoperância, do marasmo e da preguiça. Um brinde a esses, com todo o sarcasmo que lhes é merecido, para quem não se atreve a mudar o Mundo!

Um ano em que o fosso entre os ricos e os mais pobres atingiu valores nunca antes registados. Como diz a Lei de Lavoisier: Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma...
Um brinde também à Miséria dos Muitos, que transformaram a felicidade de POUCOS!

Um brinde também à perda dos valores públicos em Portugal. O que é privado é bom!

Um brinde aos 20 anos da queda do Muro de Berlim, e à construção dos Muros entre Israel e a Palestina e entre os Estados Unidos (land of the Brave and the home of the free????) e o México.

Para que 2010 não seja como 2009 é preciso muita Luta!

Para 2010, um grande Brinde! Tchim-Tchim!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Enquanto "passeava" no meio do Musseque em Luanda e repensava a minha vida e como ela é boa, ouço um jovem que profere:
"Angola Kuia bué".
Depois o seu sarcasmo encheu por completo o musseque de silêncio.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

o Culto

Eu sou uma pessoa muito sensorial.
Vejo as coisas e ouço músicas, não porque seja louca, mas porque já quase tudo se disse sob a forma de canções.
Tenho pensado numa que só o título diz tudo sobre Angola:
Big Neon Glitter
tudo porque depois de 41 anos de Guerra o que mais se quer é LUXO
E quem fala assim não é gago!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Parabéns a você, nesta data querida, muitas felicidades muitos anos de vida

Como não se faz anos todos os dias e muito menos meio século, aqui vai um beijo muito especial para uma tia muito especial.


Um xi coração, por todas as noites que passei a ouvir tocar o contador da água.

sábado, 14 de novembro de 2009

Nos últimos meses tenho tido a oportunidade de viajar de carro por quase todo o território nacional. Desde que regressei de férias estive no Kuando Kubango, em Benguela, na Huíla, no Cunene, no Zaíre, em Luanda, no Bengo, Kwanza Norte, Kwanza Sul, Huambo, Uíge e Bié. Estão em falta as Lundas, Cabinda, Namibe e o Moxico. Tudo isto se traduz em muitos km de carro, em muitos algarismos seguidos, furos nos pneus, pés na lama, entre outras tantas desventuras.
Calcorreei estas estradas e picadas de norte a sul, fiz milhares de quilómetros por locais onde nunca pensei poder passar, vi coisas assombrosas (tanto pela positiva, como pela negativa).
Se as paisagens te absorvem num frenesi de cores, tonalidades, cheiros e sensações indescritíveis, também as negativas te marcam bem fundo na pele, como se te estivessem a marcar com ferro em brasa.
Atravessei Províncias onde não há uma única estrada pavimentada, mas onde a arrogância do petróleo prevalece, como se adiantasse alguma coisa ao facto de haver milhares de km de estradas por fazer, pessoas subnutridas, subdesenvolvidas, onde não há água, onde não há escolas ou centros de saúde. Onde para chegares quase precisas de um barco! Locais onde ao lado de uma instalação industrial vivem povos nómadas que se alimentam dos restos. Restos espalhados por toda a parte, numa imensidão de terreno. Terrenos que eram seus, onde montavam as cabanas e punham o gado a pastar, onde passavam para ficar no Verão chuvoso ou para dar de beber ao gado no Inverno seco. Pensar que há pessoas que vivem num estado de miséria tal que nos é impensável imaginar que se pode viver assim. O que fazer num mundo em globalização? Manter as tradições, ou fazer com que as crianças vão à escola, aprendam, cresçam e se tornem mais do que alguma vez poderão vir a ser a roer os ossos que nós deitámos fora?
Manter as tradições nómadas, as roupas, os penteados, os costumes, as línguas, ou dar a oportunidade de nos tornarmos iguais?
É este o principal choque de uma sociedade “moderna”. Um país em transformação, alguns dirão.
É por isso que afirmo que estou zangada com este país. Este país que tem tanto para oferecer, mas que o faz a tão poucos. Zangada porque o sonho de muitos desvaneceu-se numa fila do socialismo esquemático…
Só me resta dizer: Vamos fazer mais como então?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dias e dias seguidos

Bom, parece que me fui perdendo no meio de tanta divagação, de tantos acontecimentos que ocorreram em 12 dias de férias.
A Vida em África é tão cheia de pequenas nuances que o tempo para outras coisas vai-nos escapando para escrever sobre outras estórias que não aquelas que nos enchem os dias.
Em suma, 12 dias de férias, por terras Croatas. O que há para dizer? Essencialmente há muito mais para ver do que foi visto e muito mais para dizer do que posso relatar nestas poucas linhas a que me reservo.

O que aprendi? Que há países onde o património Natural e Cultural não é espoliado. Tudo é provido de valor e tudo tem um preço, depende se estás ou não disposto a pagá-lo. O escândalo de ter que pagar para passear numas muralhas que são património da Humanidade, ou para entrar num Parque Nacional não me deixou fechar a boca. Imaginem-se a ter que pagar para entrar no Centro do Porto ou no Parque Nacional do Gerês! É exactamente a mesma coisa.
Aprendemos também que manter a fachada é algo que se desenvolve: fachada de que vivemos numa sociedade equalitária, que vivemos numa feliz democracia, que os estados são laicos, que a qualidade de vida na velhice é uma garantia, que os direitos são iguais para todos
Numa primeira impressão a Croácia é um país extremamente organizado, onde a população vive com qualidade de vida, bons carros e boas casas, quando se arranha algo mais que a superfície, começa-se a ver que não é bem como aparenta.
Uma das coisas que mais me impressionou foi o facto de não haver pedintes, não haver pobres, não haver um estrato baixo da sociedade… Inverosímil, parece-me antes uma paz podre, uma falsa calmaria antes da tempestade. Não é possível que num país onde o salário mínimo é de 200 € e o custo de vida seja idêntico ao de Portugal as pessoas consigam sobreviver. Talvez seja uma herança do Tito, esta que as pessoas mantenham a sua dignidade.
Outra das coisas que aprendi é que é bom ser um cidadão do Mundo, desde que pagues os impostos que contribuam para que possas ter uma reforma. É bom ser mente aberta e calcorrear os 4 cantos do Mundo, falar diversas línguas e ter teorias desenvolvidas e patenteadas, desde que aos 80 anos consigas ter o que comer na mesa. É bom ser-se jovem ou velho, não importa a idade, e ir atrás do amor da tua vida, mas não chegar aos 55 anos e pensar que os filhos se esqueceram de quem nós somos. Tudo isto aprendi com uma família singular: ele Croata, um livre-pensador formado em Cambridge que se apaixonou pela Venezuela, e ela uma Venezuelana que abandonou a Venezuela, a família, e que pinta e trata de outros para que nunca falte uma migalha de pão numa casa onde nunca se sabe se vai haver dinheiro para a próxima renda.
Em suma, vale a pena ficar assolado com a magnitude de Split (linda de morrer!), com o dourado de Dubrovnik, com o verdejante das ilhas e o azul cristalino do Mar Adriático.
Vale a pena ir a Mostar e ver de que forma as guerras mudam as cidades e as vidas. As diferenças culturais são evidentes entre a Bósnia Herzegovina e a Croácia. NA Bósnia encontrei algumas recordações da infância: umas chanatas de lã, umas t-shirts com a cara do Tito, os bivaques dos Cossacos, os casacos do exército vermelho… para onde me voltava encontrava algo que me recordava uma infância. Via ponte de Mostar, aquela que foi destruída por uma guerra estúpida e reconstruída novamente. Vi uma cidade que em muito me fez lembrar o Huambo. Prédios carcomidos pelas balas, tectos destruídos pelas bombas e acima de tudo o espelho da guerra nos olhos das pessoas. O futuro? Qual será ele para uma cidade também Património da Humanidade (mas aqui não pagas para poder passar a ponte)?
Nesta viagem foi possível ver que nem sempre separarmo-nos faz com que fiquemos ou sejamos melhores. Não significa que sejamos mais produtivos e mais inteligentes. De facto apenas significa que perdemos muito em sermos apenas actos isolados e não um grande NÓS!

Em suma, vale a pena ir à antiga República da Jugoslávia, ver as assimetrias, encontrar gente saída do underground ou do Gato preto, Gato Branco… (esta foi uma das melhores partes – dar nomes às pessoas de acordo com as suas semelhanças cinematográfica e baptizar com nomes de filmes as situações mais caricatas), ver o que a solidão faz às pessoas e que estar à beira da morte nos faz pisar o limite da decência humana.
Wellcome to Croatia, have a nice holliday!






PS. recomenda-se em Splite a acolhedora casa (Sobe) de Melissa. Ela brndar-vos-á com um Sun liquor maravilhosos, que faz bem ao estomâgo.



em Dubrovnik podem ficar com o Nick e a Magali, mas terão que ter aulas sobre o positivismo individual. Se isso não for impedimento, poderá ser uma lição de vida para todos.