sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

o Culto

Eu sou uma pessoa muito sensorial.
Vejo as coisas e ouço músicas, não porque seja louca, mas porque já quase tudo se disse sob a forma de canções.
Tenho pensado numa que só o título diz tudo sobre Angola:
Big Neon Glitter
tudo porque depois de 41 anos de Guerra o que mais se quer é LUXO
E quem fala assim não é gago!

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Parabéns a você, nesta data querida, muitas felicidades muitos anos de vida

Como não se faz anos todos os dias e muito menos meio século, aqui vai um beijo muito especial para uma tia muito especial.


Um xi coração, por todas as noites que passei a ouvir tocar o contador da água.

sábado, 14 de Novembro de 2009

Nos últimos meses tenho tido a oportunidade de viajar de carro por quase todo o território nacional. Desde que regressei de férias estive no Kuando Kubango, em Benguela, na Huíla, no Cunene, no Zaíre, em Luanda, no Bengo, Kwanza Norte, Kwanza Sul, Huambo, Uíge e Bié. Estão em falta as Lundas, Cabinda, Namibe e o Moxico. Tudo isto se traduz em muitos km de carro, em muitos algarismos seguidos, furos nos pneus, pés na lama, entre outras tantas desventuras.
Calcorreei estas estradas e picadas de norte a sul, fiz milhares de quilómetros por locais onde nunca pensei poder passar, vi coisas assombrosas (tanto pela positiva, como pela negativa).
Se as paisagens te absorvem num frenesi de cores, tonalidades, cheiros e sensações indescritíveis, também as negativas te marcam bem fundo na pele, como se te estivessem a marcar com ferro em brasa.
Atravessei Províncias onde não há uma única estrada pavimentada, mas onde a arrogância do petróleo prevalece, como se adiantasse alguma coisa ao facto de haver milhares de km de estradas por fazer, pessoas subnutridas, subdesenvolvidas, onde não há água, onde não há escolas ou centros de saúde. Onde para chegares quase precisas de um barco! Locais onde ao lado de uma instalação industrial vivem povos nómadas que se alimentam dos restos. Restos espalhados por toda a parte, numa imensidão de terreno. Terrenos que eram seus, onde montavam as cabanas e punham o gado a pastar, onde passavam para ficar no Verão chuvoso ou para dar de beber ao gado no Inverno seco. Pensar que há pessoas que vivem num estado de miséria tal que nos é impensável imaginar que se pode viver assim. O que fazer num mundo em globalização? Manter as tradições, ou fazer com que as crianças vão à escola, aprendam, cresçam e se tornem mais do que alguma vez poderão vir a ser a roer os ossos que nós deitámos fora?
Manter as tradições nómadas, as roupas, os penteados, os costumes, as línguas, ou dar a oportunidade de nos tornarmos iguais?
É este o principal choque de uma sociedade “moderna”. Um país em transformação, alguns dirão.
É por isso que afirmo que estou zangada com este país. Este país que tem tanto para oferecer, mas que o faz a tão poucos. Zangada porque o sonho de muitos desvaneceu-se numa fila do socialismo esquemático…
Só me resta dizer: Vamos fazer mais como então?

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Dias e dias seguidos

Bom, parece que me fui perdendo no meio de tanta divagação, de tantos acontecimentos que ocorreram em 12 dias de férias.
A Vida em África é tão cheia de pequenas nuances que o tempo para outras coisas vai-nos escapando para escrever sobre outras estórias que não aquelas que nos enchem os dias.
Em suma, 12 dias de férias, por terras Croatas. O que há para dizer? Essencialmente há muito mais para ver do que foi visto e muito mais para dizer do que posso relatar nestas poucas linhas a que me reservo.

O que aprendi? Que há países onde o património Natural e Cultural não é espoliado. Tudo é provido de valor e tudo tem um preço, depende se estás ou não disposto a pagá-lo. O escândalo de ter que pagar para passear numas muralhas que são património da Humanidade, ou para entrar num Parque Nacional não me deixou fechar a boca. Imaginem-se a ter que pagar para entrar no Centro do Porto ou no Parque Nacional do Gerês! É exactamente a mesma coisa.
Aprendemos também que manter a fachada é algo que se desenvolve: fachada de que vivemos numa sociedade equalitária, que vivemos numa feliz democracia, que os estados são laicos, que a qualidade de vida na velhice é uma garantia, que os direitos são iguais para todos
Numa primeira impressão a Croácia é um país extremamente organizado, onde a população vive com qualidade de vida, bons carros e boas casas, quando se arranha algo mais que a superfície, começa-se a ver que não é bem como aparenta.
Uma das coisas que mais me impressionou foi o facto de não haver pedintes, não haver pobres, não haver um estrato baixo da sociedade… Inverosímil, parece-me antes uma paz podre, uma falsa calmaria antes da tempestade. Não é possível que num país onde o salário mínimo é de 200 € e o custo de vida seja idêntico ao de Portugal as pessoas consigam sobreviver. Talvez seja uma herança do Tito, esta que as pessoas mantenham a sua dignidade.
Outra das coisas que aprendi é que é bom ser um cidadão do Mundo, desde que pagues os impostos que contribuam para que possas ter uma reforma. É bom ser mente aberta e calcorrear os 4 cantos do Mundo, falar diversas línguas e ter teorias desenvolvidas e patenteadas, desde que aos 80 anos consigas ter o que comer na mesa. É bom ser-se jovem ou velho, não importa a idade, e ir atrás do amor da tua vida, mas não chegar aos 55 anos e pensar que os filhos se esqueceram de quem nós somos. Tudo isto aprendi com uma família singular: ele Croata, um livre-pensador formado em Cambridge que se apaixonou pela Venezuela, e ela uma Venezuelana que abandonou a Venezuela, a família, e que pinta e trata de outros para que nunca falte uma migalha de pão numa casa onde nunca se sabe se vai haver dinheiro para a próxima renda.
Em suma, vale a pena ficar assolado com a magnitude de Split (linda de morrer!), com o dourado de Dubrovnik, com o verdejante das ilhas e o azul cristalino do Mar Adriático.
Vale a pena ir a Mostar e ver de que forma as guerras mudam as cidades e as vidas. As diferenças culturais são evidentes entre a Bósnia Herzegovina e a Croácia. NA Bósnia encontrei algumas recordações da infância: umas chanatas de lã, umas t-shirts com a cara do Tito, os bivaques dos Cossacos, os casacos do exército vermelho… para onde me voltava encontrava algo que me recordava uma infância. Via ponte de Mostar, aquela que foi destruída por uma guerra estúpida e reconstruída novamente. Vi uma cidade que em muito me fez lembrar o Huambo. Prédios carcomidos pelas balas, tectos destruídos pelas bombas e acima de tudo o espelho da guerra nos olhos das pessoas. O futuro? Qual será ele para uma cidade também Património da Humanidade (mas aqui não pagas para poder passar a ponte)?
Nesta viagem foi possível ver que nem sempre separarmo-nos faz com que fiquemos ou sejamos melhores. Não significa que sejamos mais produtivos e mais inteligentes. De facto apenas significa que perdemos muito em sermos apenas actos isolados e não um grande NÓS!

Em suma, vale a pena ir à antiga República da Jugoslávia, ver as assimetrias, encontrar gente saída do underground ou do Gato preto, Gato Branco… (esta foi uma das melhores partes – dar nomes às pessoas de acordo com as suas semelhanças cinematográfica e baptizar com nomes de filmes as situações mais caricatas), ver o que a solidão faz às pessoas e que estar à beira da morte nos faz pisar o limite da decência humana.
Wellcome to Croatia, have a nice holliday!






PS. recomenda-se em Splite a acolhedora casa (Sobe) de Melissa. Ela brndar-vos-á com um Sun liquor maravilhosos, que faz bem ao estomâgo.



em Dubrovnik podem ficar com o Nick e a Magali, mas terão que ter aulas sobre o positivismo individual. Se isso não for impedimento, poderá ser uma lição de vida para todos.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Dia Mundial do Quê?

Angola é um eterno paradoxo do contra-senso.

Ouvia atentamente na rádio local que era o dia mundial do motorista, ou algo semelhante. Para o comemorar nada melhor que chamar os nomes sonantes para discutir a mortalidade rodoviária.

O locutor revelava que é a sinistralidade rodoviária a segunda maior causa de morte em Angola, a seguir à Malária. O objectivo era apurar as causas de tamanho flagelo.

Abismada ouvi a enumeração das mesmas: estradas mal construídas, falta de sinalização, e um rol de informações desnecessárias.

Porque não começamos pelo início? Será que ninguém equaciona a falta de civismo?

Talvez devessemos começar por aí.

sábado, 17 de Outubro de 2009

Dia 3 -frequências e bites

Os dias são contados por números.
Números que significam horas, km, coisas, pessoas, decibéis e frequências… tudo o que vemos, fazemos são números de coisas.
Assim, chegámos ao dia 3. Este dia foi o dia de Circles (dos Soul Coughing). Círculos, porque a Terra é redonda, porque as coisas mais preciosas da vida não têm ângulos rectos, e acima de tudo, porquê andar em linha recta quando podes andar em círculos?
Bom, dia número 3, começa numa pousada da Juventude em Pula, na península de Hístria.
Duas adolescentes em fúria conversam em voz alta (depois de uma noite a ranger os dentes, ninguém merece). Como sou mal afamada nestas coisa de mau acordar mandei-as ir pregar para outra freguesia. Tendo em conta que a nossa diferença de idades era superior à metade da minha idade (certamente) obedeceram-me e calaram-se. Depois acenderam a luz: mas que mal fiz eu ao Mundo??
Já não havia mais nada a fazer senão entrar nas sharede facilities da pousada e ir resmungar para o banho de água fria…
Para além de circles, também há uma música que se adequa e me palpita no cérebro, que começa: estou velho, dói-me o joelho, dói-me parte do antebraço….
Depois arriscamo-nos a ir tomar o pequeno-almoço da pousada. Maravilha, virada para o Adriático cheio de adolescentes com borbulhas. Que mais se pode pedir?
Bem abandonamos rapidamente a pousada da Juventude e seguimos em direcção ao centro de Pula.
Uma cidade com uma longa história, que remonta aos tempos do império romano, tendo permanecido sob a custódia de Roma até ao Século 20, tendo sido incluída na antiga Jugoslávia. O Tito sabia o que fazia.
Pula aconselha-se pelo seu belo anfiteatro romano, com capacidade para albergar 25.000 espectadores. Este era um anfiteatro dedicado aos gladiadores. É imponente pelo seu tamanho e bom estado de conservação.
Uma volta rápida pela cidade, porque pagar 20 kunas (3 €) por uma hora de estacionamento não compensa.
Perto de Pula há algumas praias boas para se visitar. O azul do mar é a primeira coisa que se retém. As ilhas espalhadas ao longo da costa, tantas e tão perto que quase lhe chegas com o dedo. Os barcos à vela também preenchem o nosso horizonte. Vontade de mergulhar.

Lição número 1: leva uma colchonete se quiseres fazer praia na Croácia. As praias de calhau rolado calcário ferem as costas…
Lição número 2: não te deixes entusiasmar pela primeira praia que vês: a seguinte é muito melhor.
Lição n.º 3: leva uns chinelos para a água que não te saiam dos pés (esta é para a Parceira que faltou este ano).
Após uma conturbada hora de praia, entre frio e calor, banho de água quase gélida e etc, decidimos que era hora de darmos outro rumo à nossa vida.
Ora, lendo o guia tudo indicava que Labin e Radan eram bons destinos finais. O conselho para fazer a pé os km que separam estas duas cidades é que não era tão aliciante.
Bom, lá fomos nós. Radan primeiro: o mar, que mar! Transparente como os do meu avô.
Uma baía de pedras brancas, com pequenos restaurantes a ocupar a marginal.
Entretanto começou a chover. Abrigámo-nos para o café.
Daí partimos para Labin: parece uma cidade museu. Nas paredes há inúmeras inscrições que nos lembram que estamos numa terra de resistentes ao fascismo italiano. Por todo o lado aparecem as estrelas socialistas a indicar que a casa foi habitada por um membro do partido comunista ou por um resistente ao Duce. Muitos morreram jovens, a prová-lo está o conjunto de estátuas que ladeiam as muralhas.
Muitas das coisas estão escritas em Italiano ainda, conseguindo assim o comum dos mortais de língua latina interpretar o que está escrito.
Labin é uma cidade encantadora, parece saída de um conto de fadas. Em pano de fundo ouvem-se as crianças a ensaiar as músicas. Parece haver muito por trás destas paredes seculares.
Depois de explorar Labin, decidimos retomar a cruzada para Sul. O local mais provável era Rijeka ou perto, Opatjia. Optámos pela segunda. Uma cidade com tons neo-clássicos. Parecia o Estoril!
Ficámos num aparthotel agradável, mas caro (60 €/noite sem pequeno almoço). Em Opatjia fizemos a melhor refeição de toda a viagem. Recomenda-se o restaurante Hemingway que fica do outro lado (mesmo do outro lado) da cidade, junto da marina. É um local reservado, mas com uma cozinha chique. Embora tenhamos comido frango (tal como ao almoço), mas comemos com classe.
É sexta à noite: o que se faz na Croácia??? Nada, pelo menos em Opatjia. Parece que o mau tempo fez com que todos se recolhessem aos aposentos. Embora com fama de boa animação nocturna, só vimos uns bares mal amanhados com turistas de fundo de garrafa e um bar de karaoke, num imponente hotel lá do sítio. Abba??? Nem pensar. Fomos para casa dormir.


terça-feira, 13 de Outubro de 2009

interlude

Noutro dia tive mais uma sensação deja vu.
Enquanto circulava por uma via bem iluminada numa periferia de Luanda que não é África, ouvia um programa de rádio.
Primeiro os acordes soaram baixinhos e no meu bau musical começou-se a desenhar um perfil. Ainda ténues sabia de onde vinham aqueles sons, depressa identifiquei a canção enquanto me lembrava de sorrir.
Ouvindo Darklands, dos Jesus and Mary Chain, ia passando ao lado de toda a miséria que faz por acompanhar o trajecto, quando os limites da outra Luanda terminam.
Um fiozinho de lembrança que me fez recordar quando era adolescente