segunda-feira, 27 de abril de 2009

Este ano houve Cravos!

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão habitação saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir

(Liberdade, Sérgio Goinho)

domingo, 26 de abril de 2009

São dois p'ra lá, dois p'ra cá

Entre Angola e Portugal há uma barreira intransponível: o espaço.
São 7h de viagem entre Luanda e Lisboa, mais 5 horas à espera de um avião na Portela, mais 50 minutos entre Lisboa e Porto. Tudo somado dá cerca de 13 horas de viagem.
Não vou falar sobre viagens, nem sobre o que a TAP rouba em cada viagem, nem sobre o aeroporto 4 de Fevereiro... Não o que me impressiona verdadeiramente é observar.
Fico impressionada com a capacidade de pressão que os Portugueses conseguem exercer sobre um ecrã onde consta o tempo que falta para as malas chegarem.
É de facto uma delícia observar o que somos capazes de fazer:
1º- colarmo-nos uns aos outros nas Filas;
2º- tentarmos ludibriar o sr. da fronteira;
3º- amontoarmo-nos à saída do tapete das malas, na expectativa de que a nossa seja a primeirinha de todas;
4º - agarramos com toda a força o comando da consola, como se isso fosse fazer com que funcionasse, mesmo sem nós eprcebermos como...;
5º- fazermos fila para o embarque;

6º - fazermos uma fila interminável para entrar no avião, quando temos os lugares marcados e tentar dar o golpe para entrar mais depressa no avião.

Esta última é de facto a melhor de todas! Não me canso de observar o olhar exasperado dos viajantes, o tremer nervoso da perna e a posição de arranque antes de abrirem as portas do autocarro.

Enfim, as viagens são longas, há que dispor o ânimo para que não sejam dolorosas.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Era uma vez o espaço

Em África pode-se tocar nas estrelas com o dedo.

Sempre que olho para o céu penso para onde me levará o Cruzeiro do Sul, quando o puder apanhar.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Até quando?

Para quem diz que é sempre muito tarde para mudar o mundo.

Não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve
Você pode e você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu
Num quer dizer que você tenha que sofrer
Até quando você vai ficar usando rédea
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea
Pobre, rico ou classe média?
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura

(Refrão)
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?
(Repete refrão)

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
Seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Você tenta ser contente, não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante
É tudo flagrante
É tudo flagrante

(Refrão x2)

A polícia matou o estudante
Falou que era bandido, chamou de traficante
A justiça prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado e absolveu os PM's de Vigário

(Refrão x2)

A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco:
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco
A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que pra você não ver que programado é você
Acordo num tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede diploma, num tenho diploma, num pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá

Consigo emprego, começo o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego mas na hora que chego só fico no mesmo lugar
Brinquedo que o filho me pede num tenho dinheiro pra dar
Escola, esmola
Favela, cadeiaSem terra, enterra
Sem renda, se renda.
Não, não

(Refrão x2)

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro

segunda-feira, 23 de março de 2009

Mais um aninho...

Quando estamos longe de casa os amigos são de facto a nossa família.
Quando fazemos anos longe de casa, sem família ou rede telefónica, os amigos de facto são o mais importante para ocupar esse espaço.
Para além de ter sido a melhor festa de anos que tive nos últimos anos, também foi feita sem querer, assim como quem não quer a coisa.
Então? Hoje não se festeja? Oh, não sei... apareçam para jantar qualquer coisa.
Comemos um caril de frango (feito por mim) que estava óptimo, as bebidas foram providenciadas pelos amigos e o bolo pelas amigas.
Também tive um ramo de flores, que deu imenso trabalho a conseguir.
Obrigada a todos.

sábado, 14 de março de 2009

Where the fuck is Soyo?

Está a chegar ao fim a minha estadia no Soyo, com um misto de vontade de ter saído ontem e de ficar até amanhã.
Inicialmente quando soube eu para aqui vinha fiz uma pesquisa na internet, que se revelou infrutífera.
Fiquei a saber que Soyo é o nome de uma empresa de electrónica Americana e que a cidade se chamava antigamente Santo António do Zaire. Nada mais aparece na internet, que revele a substância desta cidade. Nem mapas, nem bloges, nem fotos.
Reparei também que a palavra Soyo tem levado alguns cibernautas até este meu recanto de confidências feito, por isso para os mais curiosos, os que procuram saber mais do que aquilo que nos é apresentado, aqui ficam algumas imagens do Soyo e algumas notas.
Soyo move-se a três ritmos diferentes: aos ritmos das bases (Kwanda e LNG), ritmos de Angola e ritmos congoleses.
Os primeiros vivem as suas vidas encerrados em bases superprotegidas, quase não se dá por eles. Trazem tudo da sua terra, em nada contribuem para o crescimento e melhoria da qualidade de vida da população. Não compram frutas locais, fazem o seu próprio pão, não comem peixe, não saem da sua redoma de papel.
Não ousam sair com medo que algo aconteça, e algo sempre acontece. Afinal, há muita gente por aí que não gosta deles.
Contudo, à volta destas bases há os angolanos e os expatriados não americanos. Esses sentam-se à mesa do café Licy, que se localiza na via principal do Soyo.
Para além do café Licy há pouco mais para fazer. Há mais uma padaria ao fundo da rua e um pequeno restaurante com uma vista maravilhosa, vazio e escondido num beco, polvilhado de congolesas.
Voltando ao assunto anterior, o povo à volta da mesa do café.
Podemos contar a maior parte das vezes com 3 nacionalidades diferentes. A miscigenação das culturas é forte e rapidamente toda a gente fala uma mescla entre a língua local, o português, o inglês e o francês (afinal o Congo é já do outro lado do rio). Este talvez seja o lado mais positivo desta experiência, o contacto com diferentes culturas.
O Soyo não tem muito a oferecer, na realidade pouco mais oferece que uma verde e luxuriante paisagem, composta por mangal, onde a água invade por todos os lados, criando baías e reentrâncias, istmos e penínsulas, que nos dão a sensação de viver numa ilha.

(O Soyo)


Na praia, ao longe, é possível ver a flamejante chama as plataformas. No fundo penso, sem hipocrisias: é só por isto que estamos todos nesta terra perdida na fronteira.
Leva-se daqui mais uma experiência de vida. Aprende-se que há sempre algo melhor para voltar, que há piores sítios no Mundo do que afinal pensávamos, que há gente boa e má em todos os continentes e acima de tudo que de facto os Americanos são intragáveis.
Nada mais tenho a acrescentar.

(A "Praia dos Pobres")


"Praia do Canhão"


Praia da Sereia (daqui vê-se a base)



O Mercado (uma ida às compras no Domingo)

sábado, 7 de março de 2009